Rio na Veia

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A musa que não queria ser famosa

quarta-feira, 25/novembro/2009 · Deixe um comentário

Ninguém mais pergunta pela Capivara da Lagoa.

Mas quem não se lembra da estrela do pedaço na Rodrigo de Freitas, que se tornou musa do verão, muito antes do Eike virar ecologista e amigo da Madonna? Que fim levou a Capivara da Lagoa? Como surgiu e desapareceu esta misteriosa celebridade carioca? Após minuciosa investigação, reconstituímos nesta reportagem os últimos dias de fama da Capivara da Lagoa e outros bichos quase famosos.

A Capivara está resfriada. Isso acaba com seu humor. Ela fica estranha e imprevisível. Marley, o labrador ator, sabe que não é hora para socializar. Ela se abriga nos arbustos da Fonte da Saudade, onde o mangue é mais alto e a ciclovia mais estreita. Ainda bem que os biguás não pedem autógrafos. A Capivara da Lagoa odeia ser uma celebridade quando está gripada.

Longe dali, outra capivara goza de boa saúde e posa para fotografias no Recreio dos Bandeirantes. Os jornalistas a chamam de Capivara Emergente. Ela se distrai com a agitação dos fotógrafos e quase não vê o jacaré emergindo do Canal das Tachas. É duro ser emergente na zona oeste.

Dois mil jacarés de papo amarelo vivem no esgoto de Jacarepaguá sonhando com uma vida melhor. Um deles até invadiu uma casa na Ilha da Gigóia, para se acasalar com a bóia de dinossauro na piscina. Mas nenhum jacaré progrediu tanto quanto a Capivara da Lagoa.

Sua origem é misteriosa e merece uma investigação. Três versões circulam entre os garçons do Bar Lagoa, segundo apurado após algumas Capivodkas.

Há quem diga que a Capivara subiu o Alto da Boa Vista, passou pela Vista Chinesa e desceu o Rio dos Macacos até chegar à Lagoa. Outros contam que ela foi vista na praia da Barra e veio nadando até o Leblon, entrando na Lagoa pelo canal do Jardim de Alah.

Um dos garçons, de inteira confiança, confidenciou que a Capivara foi criada como se fosse um labrador, por uma senhora de suas relações, moradora de um quitinete na Prado Junior. Infelizmente, a Capivara acabou despejada quando começou a se parecer com um São Bernardo de cem quilos.

Mas tudo é boato. O certo é que ela está gripada e Marley prefere manter distância.

Quando cai a noite no Centro velho, um predador espreita as sombras do Campo de Santana. Ele não está interessado em capivaras. A fera esfomeada veio caçar uma espécie rara. Mais do que depressa, salta sobre o pavão albino ameaçado de extinção. Os marrecos disparam o alarme tarde demais.

Travestis indignados fazem justiça. J.S., vulgo Galeto, é conduzido para a Delegacia de Meio Ambiente, preso com escoriações generalizadas. As cutias não quiseram testemunhar. O Meia Hora noticiou: Galeto queria traçar Pavão e acabou no Espeto.

No dia seguinte, a Capivara da Lagoa ainda está resfriada. Isso a deixa estranha e imprevisível. Então, sem aviso, ela começa a nadar. Atravessa o Jardim de Alah rumo ao oceano, agitando a fauna no Posto Nove. Quando cruza o Forte de Copacabana, o salva-mar já está no local com redes e tranquilizantes. As tevês transmitem em plantão extraordinário, o sol desce no Dois Irmãos e todo mundo aplaude no Arpoador.

A Capivara queria ir para a África. Foi o que deu no New York Times.

J.S., vulgo Galeto, passou dois dias preso e foi solto. Hoje se tornou vegetariano e evita o Campo de Santana. 

A Capivara Emergente do Recreio teve apenas cinco minutos de fama antes de submergir de volta ao anonimato da Lagoa de Jacarepaguá.

Marley, o labrador, estrelou o filme “Marley – O Pior Cão do Mundo” e se tornou mundialmente famoso. Foi adotado pela atriz Jeniffer Aniston e, após uma separação traumática, vive em uma clínica para reabilitação de cães drogados.

A Capivara da Lagoa não conseguiu chegar à Africa. Foi capturada na praia de Copacabana, presa no Zoo de Niterói e libertada em Duque de Caxias, próximo da Baía de Guanabara, onde vive com outras capivaras em total anonimato.

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Rio Gentil

segunda-feira, 26/outubro/2009 · 1 Comentário

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É quase tudo verdade.

Maria de Lourdes, ascensorista do edifício garagem, deseja bom dia mais de 1253 vezes por manhã. O hábito se disseminou e muita gente costuma desejar bom dia nos elevadores do edifício garagem.

Na rampa de entrada do estacionamento, a recepcionista Solange repetia pelo menos 727 vezes ao dia a reverência que convidava os motoristas a parar na área VIP. O mis-en-scene sensual, que lembra vagamente uma dança egípcia, quase dobrou o número de motoristas que utilizam o estacionamento VIP. Um deles se apaixonou por Solange e parece que decidiram se casar, porque não há mais danças convidativas no andar VIP. 

Na rua de pedestres quase em frente, outro ritual tem seu curso. O vendedor de livros Jailton caminha abaixo das 622 janelas de escritórios do Edifício Sul Americano, quando um grito o faz parar: Camarão! E logo dezenas de pessoas se aglomeram nas janelas: Eiiii Camarão!!! Aêêê Camarão!!!! A gritaria dura alguns segundos e depois o vendedor segue seu caminho.

Na penúltima eleição, Jailton se candidatou a vereador. O tempo na TV era curto, então ele resumia sua plataforma política em uma frase, vermelho até as orelhas: Camarão é a mãe!!! Recebeu 637 votos.

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Na hora do almoço, Jailton, Solange e populares em geral se aglomeram para assistir a um show de ilusionismo na calçada. Davi Coperfil, mágico e camelô, ensina o truque para quem comprar uma de suas mágicas. A mais barata custa cinco reais e faz moedas sumirem dentro de um copo com água. Ele já vendeu 68 truques em um dia de sol. Entre seus clientes há crianças, aposentados, empresários engravatados e até um Promotor.

José Datrino, bem sucedido empresário de transportes, não tinha tempo para números de mágica nem conhecia o Gran Circus Norte-Americano, que deixara o Rio para uma temporada em Niterói. Mas quando a lona se incendiou e mais de 500 pessoas morreram na véspera do natal de 1961, José Datrino sentiu uma compulsão irresistível de ajudar os sobreviventes.
 
Datrino encheu seus caminhões com mantimentos e foi ao local oferecer conforto às famílias, que ele não conhecia. No lugar das cinzas, ele plantou um jardim e uma horta. Desde então, José Datrino ficou conhecido como José Agradecido e se tornou um pregador das ruas.

Ele ensinava que em lugar de ”muito obrigado”, devemos dizer ”agradecido”, e ao invés de ”por favor”, devemos usar ”por gentileza”, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns com os outros por amor, não por favor.

José Agradecido deixou sua obra no livro de concreto urbano, pintado nas 56 pilastras do viaduto do Caju, com a mensagem em verde e amarelo. Gentileza gera gentileza. Agradecido, profeta.

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O Bonfim da Conde

segunda-feira, 12/outubro/2009 · 2 Comentários

Todo carioca conhece a Conde de Bonfim, a principal rua do mais tradicional bairro da zona norte do Rio, a Tijuca. Agora, chegou a vez dos cariocas conhecerem o Bonfim da Conde, o “inspetor” de um dos mais tradicionais bares da zona sul da cidade.

Bonfim é um sujeito que nasceu pra vigiar. Durante anos, foi inspetor do Colégio São José, na Tijuca, Rua Conde de Bonfim. O inspetor de colégio, normalmente, é um cara que está ali pra dizer não. Não pode beijar a namorada, não pode fumar no recreio, não pode andar de camisa aberta, não pode pular o muro porque chegou atrasado… O inspetor é o pai rigoroso, o irmão mais velho, a tia rabugenta, o fiscal do museu. O inimigo nº 1 dos alunos de qualquer escola.

Mas assim não era o Bonfim. O Bonfim indicava um cantinho pra turma namorar. O Bonfim dava uma chance pra garotada apagar o cigarro em vez de levar a turma pra coordenação. O Bonfim abotoava a camisa dos marombeiros que queriam impressionar as meninas. O Bonfim atrasava o relógio da portaria pros atrasados poderem entrar na escola sem advertência na caderneta.

Assim era o Bonfim.

Pois depois de anos inspecionando a garotada do colégio da Conde de Bonfim, na zona norte, essa figura simpática migrou pro outro lado do túnel, na zona sul, exercendo papel parecido em um dos bares mais frequentados da noite carioca, o Botequim Informal da Rua Conde Bernadotte. Lá, ele passou a ser o Bonfim da Conde.

Se você está em pé, ele te arruma uma mesa. Se bebeu muito, ele te coloca num táxi. O Bonfim é assim. O inspetor das boas causas. Se a conta veio errada, ele traz a calculadora. Se o cartão não passou, ele arruma outra maquininha. Se está paquerando alguém na mesa ao lado, ele leva seu recado.

Só tem uma coisa que o Bonfim não admite. É o cliente sair do bar sem tomar uma saideira. Nisso, a inspeção do Bonfim é rigorosa. Cliente bom toma a última da noite por conta da casa. Mas só se for bom mesmo.

Bom como o Bonfim do Botequim.

Esse texto é uma homenagem do Rio na Veia aos bons bares cariocas, como o Botequim Informal da Conde Bernadotte, que não ‘vacilou na saideira’.

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Rio de Januário

sábado, 10/outubro/2009 · Deixe um comentário

Januário é um porteiro, vigia da noite, do prédio nº 173 da Avenida Atlântica, em frente à praia de Copacabana, separado por apenas 2 prédios à direita da Boate Help, a preferida dos gringos que visitam a cidade olímpica.

Diferentemente da maioria dos porteiros dos edifícios do Rio, Januário é carioca mesmo. Nasceu no subúrbio, em Quintino, terra do Galinho. Cresceu ao lado da linha do trem. Estudou numa escola pública do Méier, torce pro Botafogo, sonhava ser dono de bar, mas há 22 anos é porteiro do mesmo prédio, o Edifício Príncipe da Dinamarca.

Ali mesmo começou suas atividades profissionais, aos 18 anos, como faxineiro. Hoje é o chefe dos porteiros. Vive com sua esposa, Vânia, e os dois filhos do casal, Marcinho e Patricia, ambos adolescentes, que têm o privilégio de viver à beira-mar, já que Januário há 6 anos ganhou da síndica, Dona Sônia, o direito de ocupar, com sua família, o pequeno quarto e sala localizado nos fundos da garagem no térreo do edifício.

Januário tem um jeito de ver o Rio muito particular, diferente da maioria dos cariocas. Januário passa as noites vendo a praia de Copacabana, de baixo pra cima. De manhã, Januário dorme, até depois do meio-dia. À tarde, Janu vive sua adorável rotina: almoça com a esposa e os filhos, conserta algum vazamento no 102 ou no 401, lava os carros dos apartamentos da coluna 03 (ele, Sr. Pedro e o novato Amarildo, também porteiros do prédio, dividiram igualmente o trabalho de lavar os carros dos 30 apartamentos do condomínio), vai ao banco pagar algumas contas a pedido da síndica e não deixa de dar um mergulho no “mar da princesinha”. Ao anoitecer, Januário ainda joga uma pelada de areia antes de tomar seu banho para vestir o uniforme azul escuro da portaria. Seu trabalho começa às 22hs em ponto e vai até às 6hs do dia seguinte.

Uma vez por semana, o porteiro da madrugada está de folga. No Rio de Januário, mesmo nesses dias, ele lava carros, conserta vazamentos, vai ao banco, curte a família, dá um mergulho e joga bola.

Januário mora de frente pra praia. Ele vê o Rio de baixo pra cima.


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