Ele é historiador da música popular brasileira. Publicou, pela Editora Jorge Zahar, as biografias dos músicos Anacleto de Medeiros e Joaquim Callado. Pela mesma editora, escreveu os Almanaques do choro, do samba e do carnaval. Com Juliana Lins, publicou cinco livros infanto-juvenis, na Editora Moderna, contando a vida dos compositores Pixinguinha, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Braguinha e Noel Rosa.
Atualmente, André Diniz trabalha em alguns novos projetos com lançamento previsto para o ano que vem. Um deles aborda história e música popular: “República Cantada: do Abre Alas a Lula, de Deodoro ao funk.”
É nesse clima que André Diniz troca uma ideia com o RnV sobre música, história, Rio de Janeiro, samba, choro, bossa nova e funk.
Já é quase carnaval no Rio de Janeiro…
RnV: Em seus livros, a música é quase sempre o centro de tudo. Artistas, ritmos, festas populares e danças. Como foi despertado esse seu específico interesse?
André Diniz: É difícil precisar. Mas tenho a impressão de que todos os brasileiros nascem em algum ambiente musical. Uns vão ouvir os ritmos, outros são privilegiados na arte de compor, cantar e tocar; eu me insiro no quesito divulgação. Gosto tanto de música, que só sobrou, devido à minha falta de habilidade, divulgá-la. Tenho todos os instrumentos em casa e nenhuma capacidade para tocá-los. Costumo dizer que trocaria todos os livros que fiz por um acorde bem executado…
RnV: Qual a importância de contextualizar cada objeto de pesquisa ao momento histórico em que se inserem? Como a História explica melhor a evolução do choro, do samba, ou do carnaval no Rio de Janeiro?
André Diniz: Nenhuma arte pode ser explicada sem o seu contexto histórico. E a música não foge a essa regra. O samba só se tornou um gênero nacional pelo contexto histórico do surgimento do rádio, da consolidação da miscigenação da população carioca e, do ponto de vista da política, da sedimentação do Estado dirigido pelo presidente Getúlio Vargas que valorizou a relação com os setores populares. Porém, ao mesmo tempo, a arte não poder ficar circunscrita ao período que a gerou. Ela transcende o momento da sua criação, por isso, até hoje, apreciamos a arte grega, romana, renascentista e ouvimos as obras de Pixinguinha, Villa-Lobos, Tom Jobim, entre outros.
RnV: André, você já resgatou a história de personagens muito importantes para a evolução musical do Rio de Janeiro, como Anacleto de Medeiros. Por que alguém tão importante para um determinado movimento musical como o choro foi esquecido ou ignorado por grande parte da sociedade carioca?
André Diniz: É realmente uma tarefa meio maluca. Tanto em relação ao livro do Anacleto quanto ao livro do Callado, passei meses nos arquivos da cidade para achar pouquíssimas informações. Acabei tendo que unir o faro de historiador com uma habilidade de escritor, que ainda tento construir, para recompor a vida desses singulares personagens da história do choro. Não sei se ficou bom, mas ao menos os biografados ganhavam uma vida que não tinham na nossa literatura musical. Facilitei o trabalho de futuros pesquisadores do choro.
RnV: Em sua opinião, que outros movimentos tipicamente cariocas merecem ainda ser resgatados? De que forma tais expressões culturais podem ajudar a contar a história do Rio de Janeiro?
André Diniz: Parte dessa pergunta estou respondendo no meu próximo livro, da Editora Zahar, que sai no ano que vem: “A República Cantada: história do Brasil e música popular – do Abre Alas a Lula, de Deodoro ao Funk”. Finalmente, os pesquisadores, nas últimas décadas, descobriram que a música não é só boa para ouvir, mas também para pensar. Todos os nossos sonhos, desejos, desencantos, projetos, ideologias, foram retratados de uma alguma forma no cancioneiro popular. E existe ainda uma infinidade de pesquisas que podem ser feitas para melhorar a compreensão desses muitos Brasis que temos por aí. No Rio, especificamente, surgiram o choro, o samba urbano, a bossa nova, o funk… Todos cantam a cidade. O choro dos funcionários públicos do início da República, com suas rodas que varavam a madrugada; o samba que uniu em sua rítmica a miscigenação e a geografia social da cidade; a bossa nova que emergiu em uma zona sul encantada e bronzeada e o funk, retrato em branco e preto de nossas favelas e periferias contemporâneas…
Leia as outras entrevistas do RnV.
Cadastre-se aqui para receber em seu e-mail as novidades do RnV.





























