Nelson, Engraxate

Você voa para a o planeta Terra, dá uma guinada para o Brasil, aponta para o Rio de Janeiro e pousa bem no centro da cidade. Só tem que ligar uns minutinhos antes para o celular do papai que ele vai estar lá te esperando quando você chegar…

Meu filho quer ser astronauta. Mas vive me perguntando como é que vai ser quando sentir saudades do pai.

Meu nome é Nelson. Eu sou engraxate. E onde eu trabalho, vejo outros astronautas que se tornaram advogados, filhos que viraram pais e pais que não tiveram filhos. Políticos e administradores, economistas e contadores; os poetas… poetas, que antes de escreverem as belezas de seus versos, me pedem graxa para que seus sapatos possam lhes refletir a luz da realidade.

Caso recente é o caso do Sérgio, que não é poeta, mas é músico. Ele vem, no fim da tarde, à engraxataria para dar um lustre nos sapatos. Diz que é importante para todo bom sambista que, em dia de show, os sapatos estejam brilhando. Como o Sérgio toca bandolim, quase todos os dias, nos bares da Lapa, é facilmente compreensível entender por que nos vemos com tanta freqüência.

 Os sapatos nos dizem muito sobre a pessoa, seu Nelson. Certa vez, num dos sambas que costumava promover ali no Carioca da Gema, vi uma moça dançar a noite inteira com um único cavalheiro. Até aí, nada demais, você vai me dizer. E não há nada demais nisso mesmo. O que me chamou a atenção, Nelson, é que ela tinha uma aliança no dedo anelar da mão esquerda e o cavalheiro com quem ela dançava, não a tinha. Estou acostumado a ver mulheres dançando com homens em gafieiras, pagodes e rodas de samba, sem isso significar absolutamente nada. O que os une não precisa ser nenhuma outra coisa que não a paixão pela música, ou o gosto pela dança.

- Ela estava de aliança no dedo, seu Nelson, em todas as noites que a vi. E vou lhe contar que na última noite em que me apresentava na casa, durante um intervalo, ao avistar a moça sozinha no bar, fui falar com ela.

- Senhora, me desculpe a franqueza e a intromissão, mas tenho estado curioso ao seu respeito. Você me chama a atenção. Dança como poucas, devo dizer; diverte-se com muitos. Você é comprometida, e isso posso ver pela aliança que tem no dedo. O que explica a ausência de teu marido no recinto? Não gosta de samba? Esgota-se no trabalho? Abomina a vida noturna?

Desconcertada com a pergunta, a moça reforçou, junto ao garçom, o pedido que tinha feito. Já com a cerveja na mão, me disse:

- Sabe, senhor…?

- Sérgio. – lhe respondi

- Senhor Sérgio, tem sempre essa quantidade de brilho nos pés?

- O bom sambista se mostra pelos pés, senhora…?

- Carmem. – respondeu

- Carmem. – completei.

- Senhor Sérgio, peço licença ao senhor em não lhe responder a pergunta que me fez. Você não entenderia nada do que viesse a lhe explicar. Não é só o bom sambista que se mostra pelos pés.

- Sabe, seu Nelson, confesso que realmente não entendi aquela situação.

- Ah, seu Sérgio. Eu digo a você. Essas moças da Lapa… Olha, me lembre de, na próxima vez, reforçar o brilho.

Nelson é dono de uma engraxataria no Centro do Rio e, pelo estado da sola dos sapatos que escova e dá brilho, é capaz de desvendar a personalidade de seus clientes. Pouco se enganou a esse respeito nos últimos 30 anos.

A musa que não queria ser famosa

Ninguém mais pergunta pela Capivara da Lagoa.

Mas quem não se lembra da estrela do pedaço na Rodrigo de Freitas, que se tornou musa do verão, muito antes do Eike virar ecologista e amigo da Madonna? Que fim levou a Capivara da Lagoa? Como surgiu e desapareceu esta misteriosa celebridade carioca? Após minuciosa investigação, reconstituímos nesta reportagem os últimos dias de fama da Capivara da Lagoa e outros bichos quase famosos.

A Capivara está resfriada. Isso acaba com seu humor. Ela fica estranha e imprevisível. Marley, o labrador ator, sabe que não é hora para socializar. Ela se abriga nos arbustos da Fonte da Saudade, onde o mangue é mais alto e a ciclovia mais estreita. Ainda bem que os biguás não pedem autógrafos. A Capivara da Lagoa odeia ser uma celebridade quando está gripada.

Longe dali, outra capivara goza de boa saúde e posa para fotografias no Recreio dos Bandeirantes. Os jornalistas a chamam de Capivara Emergente. Ela se distrai com a agitação dos fotógrafos e quase não vê o jacaré emergindo do Canal das Tachas. É duro ser emergente na zona oeste.

Dois mil jacarés de papo amarelo vivem no esgoto de Jacarepaguá sonhando com uma vida melhor. Um deles até invadiu uma casa na Ilha da Gigóia, para se acasalar com a bóia de dinossauro na piscina. Mas nenhum jacaré progrediu tanto quanto a Capivara da Lagoa.

Sua origem é misteriosa e merece uma investigação. Três versões circulam entre os garçons do Bar Lagoa, segundo apurado após algumas Capivodkas.

Há quem diga que a Capivara subiu o Alto da Boa Vista, passou pela Vista Chinesa e desceu o Rio dos Macacos até chegar à Lagoa. Outros contam que ela foi vista na praia da Barra e veio nadando até o Leblon, entrando na Lagoa pelo canal do Jardim de Alah.

Um dos garçons, de inteira confiança, confidenciou que a Capivara foi criada como se fosse um labrador, por uma senhora de suas relações, moradora de um quitinete na Prado Junior. Infelizmente, a Capivara acabou despejada quando começou a se parecer com um São Bernardo de cem quilos.

Mas tudo é boato. O certo é que ela está gripada e Marley prefere manter distância.

Quando cai a noite no Centro velho, um predador espreita as sombras do Campo de Santana. Ele não está interessado em capivaras. A fera esfomeada veio caçar uma espécie rara. Mais do que depressa, salta sobre o pavão albino ameaçado de extinção. Os marrecos disparam o alarme tarde demais.

Travestis indignados fazem justiça. J.S., vulgo Galeto, é conduzido para a Delegacia de Meio Ambiente, preso com escoriações generalizadas. As cutias não quiseram testemunhar. O Meia Hora noticiou: Galeto queria traçar Pavão e acabou no Espeto.

No dia seguinte, a Capivara da Lagoa ainda está resfriada. Isso a deixa estranha e imprevisível. Então, sem aviso, ela começa a nadar. Atravessa o Jardim de Alah rumo ao oceano, agitando a fauna no Posto Nove. Quando cruza o Forte de Copacabana, o salva-mar já está no local com redes e tranquilizantes. As tevês transmitem em plantão extraordinário, o sol desce no Dois Irmãos e todo mundo aplaude no Arpoador.

A Capivara queria ir para a África. Foi o que deu no New York Times.

J.S., vulgo Galeto, passou dois dias preso e foi solto. Hoje se tornou vegetariano e evita o Campo de Santana. 

A Capivara Emergente do Recreio teve apenas cinco minutos de fama antes de submergir de volta ao anonimato da Lagoa de Jacarepaguá.

Marley, o labrador, estrelou o filme “Marley – O Pior Cão do Mundo” e se tornou mundialmente famoso. Foi adotado pela atriz Jeniffer Aniston e, após uma separação traumática, vive em uma clínica para reabilitação de cães drogados.

A Capivara da Lagoa não conseguiu chegar à Africa. Foi capturada na praia de Copacabana, presa no Zoo de Niterói e libertada em Duque de Caxias, próximo da Baía de Guanabara, onde vive com outras capivaras em total anonimato.

Trocando uma Ideia com Pedro Miranda

Ele dispensa apresentação. Ao menos para aqueles que, de alguma forma, testemunharam o movimento cultural de resgate do samba de raiz e do carnaval de rua na Lapa e no Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Quem frequentou, durante essa última década, casas de samba como o Bar Semente, o Centro Cultural Carioca e o Carioca da Gema, ou ainda, acompanhou o Cordão do Boitatá, um dos mais tradicionais blocos de carnaval de rua do Centro do Rio, sabe muito bem quem é esse carioca. Dono de uma voz inconfundível, cujo timbre remete aos mais clássicos perfis do samba, o artista lança agora o disco ‘Pimenteira’, com inéditas de Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Nei Lopes, Alfredo Del-Penho, Edu Krieger e Moyseis Marques, entre outros compositores de todos os tempos.

Há anos ele também coloca o seu talento a serviço de conjuntos como o Grupo Semente, conhecido por acompanhar a cantora e compositora Teresa Cristina, e Samba de Fato, responsável pela realização de um elogiado tributo ao grande Mauro Duarte, ao lado de Cristina Buarque.

Respondendo a apenas 3 perguntas, Pedrinho, como é conhecido por seus amigos e fãs, é capaz de sintetizar passado, presente e futuro, reencontrando as raízes dessa paixão infinita que tem pelo samba.

Se você já gosta do Pedro, descubra um pouco mais sobre sua personalidade, tão revelada nas próximas linhas. Se ainda não o conhece, não perca mais tempo.

Aproveite pra ouvi-lo em http://www.myspace.com/pedrinhomiranda.

Rio na Veia orgulhosamente apresenta: PEDRO MIRANDA

RnV: Onde está a raiz do samba na sua vida? Resumidamente, como se deu a sua trajetória musical?

Pedro Miranda: Foi aos meus 19 anos, lá pros idos de 1996, quando eu conheci o disco Roda de Samba, do conjunto “A Voz do Morro”. Nessa época, eu já me interessava por música brasileira, vivia em sebos, já tinha devorado toda a coleção de discos Marcus Pereira com música popular de todo o Brasil, já tocava pandeiro e outros instrumentos de percussão. Esse interesse pela cultura brasileira já tinha até me levado, com alguns integrantes do Cordão do Boitatá, a viajar para o norte e nordeste do país, para conhecer de perto essas manifestações culturais. Essa viagem abriu muito a minha cabeça, me fez olhar o nosso país de outra forma.

Quando eu voltei pro Rio, e conheci esse disco – do qual participavam Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Zé Ketti, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Anescar do Salgueiro, Oscar Bigode e Zé Cruz – um grande universo se abriu à minha frente. Eu fiquei muito impressionado com aquela sonoridade, aquelas melodias, aquele jeito de tocar e cantar. E conforme eu fui descobrindo mais sobre eles, cada um desses sambistas, foi se desdobrando em inúmeros parceiros, discos, escolas de samba e histórias. A partir daí, foi um caminho sem volta. Mais tarde, eu tive a honra de conhecer pessoalmente e até trabalhar com muitos desses artistas.

RnV: Pedro, você participou ativamente do renascimento de verdadeiras instituições cariocas, como o samba de raiz, o carnaval de blocos de rua, as marchinhas, a gafieira e os bares da Lapa. Esse movimento parece consolidado. Agora é preciso pensar o futuro. Quais são as suas expectativas em relação à herança que esse movimento pode representar para as próximas gerações? Em outras palavras, o que anda rolando nos bastidores com o objetivo de preservar, de forma duradoura, essa conquista fantástica que tivemos na cena cultural carioca?

Pedro Miranda: Eu acho que a minha geração foi buscar o elo perdido da música brasileira. A ditadura gerou uma geração alienada, que não conhecia a cultura brasileira, ou então, conhecia, mas não valorizava. Bom era o que vinha de fora, principalmente dos EUA. Eu mesmo, quando voltava da escola, no final dos anos 80, ouvia no rádio as músicas da Jovelina, achava engraçado, ficava zombando – tenho até vergonha de dizer isso – dizendo que era música de suburbano. Depois, fui descobrir que era mesmo música do suburbano, mas isso só me faz gostar mais ainda. Eu percebi que no subúrbio, de certa forma, a raiz se preservou, apesar de ser culturalmente marginalizada. Esse movimento dos anos 80, com o grupo Fundo de Quintal, a turma da Cacique de Ramos, o Zeca Pagodinho, a Jovelina, entre outros, foi muito importante para o que está acontecendo hoje, eles seguraram a chama acesa.

Na minha opinião, todo esse resgate foi realmente necessário. Eu, quando comecei a conhecer tudo isso, tinha uma sensação controversa, ao mesmo tempo que eu não conhecia quase nada, eu sentia que aquilo tudo fazia parte de mim. Eu só queria saber de ir pra Madureira…

Agora a música brasileira pode ir adiante, fundamentada em sua tradição. Só podemos construir um edifício depois de fazer a fundação. Só podemos caminhar rumo ao futuro, conhecendo nosso passado.

RnV: Seu novo CD Pimenteiras já parece ter nascido fadado ao sucesso, muito elogiado pela crítica e por grandes artistas, como o Caetano Veloso. O que tem de mais carioca nesse trabalho? E o que a pimenta tem a ver com o samba?

Pedro Miranda: Fico muito feliz com a aceitação do disco. Ainda mais por ser um trabalho totalmente independente, esse reconhecimento é muito recompensante.

Acho que é um trabalho bem representativo do Rio de Janeiro e da cultura carioca em geral. Agora, o que ele tem de mais Carioca eu não sei dizer.

Já a pimenta, assim como a feijoada, a cabritada, a galinha à cabidela, o angu à baiana (que apesar do nome, é um prato bem carioca), e uma boa peixada, tem tudo a ver com o samba. Aliás, em um bom pagode não pode faltar uma comida bem gostosa.

Além da participação de Pedro Miranda, o Rio na Veia agradece a colaboração de Monica Ramalho (www.monicaramalho.com.br), assessora de imprensa do cantor, na produção dessa entrevista.

 

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Adoro o trem lotado!

central do brasil

Está redondamente enganado quem acha que pegar o trem lotado no Rio não pode ser divertido. Explica-se.
 
Reza a lenda que em 2 dezembro de 1940 foi criado o Dia do Samba para homenagear Ary Barroso. Pra comemorar essa data, todo dia 2/12 acontece o Pagode do Trem, evento que já reuniu, em edições anteriores, mais de 60.000 pessoas rumo a Oswaldo Cruz!
 
Ano passado, a programação incluiu shows na concentração da Central do Brasil. Quando começam a partir os trens (ano passado foram 4), cada vagão conta com um grupo melhor que o outro. Velha Guarda da Portela, do Salgueiro, da Vila, Cacique de Ramos, Tia Doca… Em todos, o samba come solto. Os trens dão uma paradinha na Estação Primeira pra apanhar a Velha Guarda da Verde e Rosa e seguem direto pra Oswaldo Cruz. Uma delícia, trens lotados numa festa contagiante! Cansou? Calma, calma!
 
Quando desembarcam, os viajantes encontram diversos palcos armados, rodas de samba e blocos de partido alto. Não é preciso dizer que qualquer grupo de 3 pessoas se transforma numa roda e, por essas e outras, a festa só acaba quando termina!

O Rio na Veia tá de olho na programação desse ano. Fiquem atentos!
 
Então? Vamos nesse trem?  Assistam ao vídeo a seguir.

É HOJE! FESTA CAJUÍNA

Festa Cajuína

Rio Pra Poucos – As Palmeiras do Aterro

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O frenesi do ir e vir do Aterro do Flamengo nem sempre permite aos mais apressados apreciar um raro e belo momento da natureza, o florescer da palmeira Talipot (Corypha umbraculifera).

Não é muito comum a floração. Normalmente, ocorre quando a palmeira alcança de 40 a 70 anos. Infelizmente, esse fenômeno também indica que ela começará a morrer.

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A palmeira Talipot é originária da Índia e do Sri Lanka e foi trazida para o Brasil por Burle Marx. E é na CIDADE MARAVILHOSA que se encontra o maior número de exemplares desta exuberante Palmeira.

Agora, quando você passar pelo Aterro do Flamengo, deixe de lado o MP3, o blackberry, o laptop, as notícias do mercado financeiro, a reunião que te espera, e contemple as palmeiras que estão localizadas em frente ao número 200 da Praia do Flamengo e entre o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Monumento aos Pracinhas.

Antes que seja tarde demais.

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Imagens Cariocas

Assistam ao nosso primeiro vídeo com algumas belas imagens do Rio e pense se você conhece bem a sua cidade. Se não conhece, levante-se  agora daí, nesse minuto, e vá passear…

 

Rio Gentil

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É quase tudo verdade.

Maria de Lourdes, ascensorista do edifício garagem, deseja bom dia mais de 1253 vezes por manhã. O hábito se disseminou e muita gente costuma desejar bom dia nos elevadores do edifício garagem.

Na rampa de entrada do estacionamento, a recepcionista Solange repetia pelo menos 727 vezes ao dia a reverência que convidava os motoristas a parar na área VIP. O mis-en-scene sensual, que lembra vagamente uma dança egípcia, quase dobrou o número de motoristas que utilizam o estacionamento VIP. Um deles se apaixonou por Solange e parece que decidiram se casar, porque não há mais danças convidativas no andar VIP. 

Na rua de pedestres quase em frente, outro ritual tem seu curso. O vendedor de livros Jailton caminha abaixo das 622 janelas de escritórios do Edifício Sul Americano, quando um grito o faz parar: Camarão! E logo dezenas de pessoas se aglomeram nas janelas: Eiiii Camarão!!! Aêêê Camarão!!!! A gritaria dura alguns segundos e depois o vendedor segue seu caminho.

Na penúltima eleição, Jailton se candidatou a vereador. O tempo na TV era curto, então ele resumia sua plataforma política em uma frase, vermelho até as orelhas: Camarão é a mãe!!! Recebeu 637 votos.

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Na hora do almoço, Jailton, Solange e populares em geral se aglomeram para assistir a um show de ilusionismo na calçada. Davi Coperfil, mágico e camelô, ensina o truque para quem comprar uma de suas mágicas. A mais barata custa cinco reais e faz moedas sumirem dentro de um copo com água. Ele já vendeu 68 truques em um dia de sol. Entre seus clientes há crianças, aposentados, empresários engravatados e até um Promotor.

José Datrino, bem sucedido empresário de transportes, não tinha tempo para números de mágica nem conhecia o Gran Circus Norte-Americano, que deixara o Rio para uma temporada em Niterói. Mas quando a lona se incendiou e mais de 500 pessoas morreram na véspera do natal de 1961, José Datrino sentiu uma compulsão irresistível de ajudar os sobreviventes.
 
Datrino encheu seus caminhões com mantimentos e foi ao local oferecer conforto às famílias, que ele não conhecia. No lugar das cinzas, ele plantou um jardim e uma horta. Desde então, José Datrino ficou conhecido como José Agradecido e se tornou um pregador das ruas.

Ele ensinava que em lugar de ”muito obrigado”, devemos dizer ”agradecido”, e ao invés de ”por favor”, devemos usar ”por gentileza”, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns com os outros por amor, não por favor.

José Agradecido deixou sua obra no livro de concreto urbano, pintado nas 56 pilastras do viaduto do Caju, com a mensagem em verde e amarelo. Gentileza gera gentileza. Agradecido, profeta.

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Trocando uma Ideia com Angela Dutra de Menezes

Angela Dutra de MenezesEla é escritora, jornalista e avó-coruja, segundo ela mesma. Com obras publicadas em Portugal e na Espanha, Angela Dutra de Menezes se caracteriza pelo texto ágil, lírico e bem humorado. “A tecelã de sonhos” é o seu sétimo livro. No próximo dia 27 de outubro, Angela relançará seu best seller “O Português que nos Pariu”, que já vendeu mais de 60 mil cópias, no Botequim Chico & Alaíde, no Leblon, com chopp e bolinho de bacalhau para seus convidados. Tem coisa mais carioca? Ou será portuguesa?

Essa simpática carioca está sempre à disposição dos leitores em www.dutrademenezes.blogspot.com.

RnV: Como nasceu a ideia encontrada logo no início do livro de relacionar história e receitas culinárias? Você acha que o ensino nas escolas poderia ser mais parecido com a forma que você usa para narrar os fatos históricos?

Angela D. Menezes: Eu queria escrever um livro que falasse para a nova geração de brasileiros, que se distancia de nossa História remota, enraizada em Portugal, quem foram as pessoas e quais os fatos que marcaram indelevelmente a História e a Cultura brasileira. Para isso, antes de mais nada, precisava dizer quem são os portugueses. Tinha duas opções: escrever de maneira tradicional, que não encanta ninguém, ou “pescar” o leitor logo de saída, com um texto bem original. Então, pensei na “Receita de Português”. É uma receita de bolo, com Ingredientes e Modo de Fazer porque o português também é conseqüência da miscigenação de muitos povos. Escrevendo esta Receita também encontrei o tom do livro, que tem um texto fácil de ler. A História é muito interessante, curiosa, instigante. Não precisa ser ensinada de maneira “quadrada”. Acho que é por isso, pelo jeito com que narro os fatos, dessacralizando heróis e mitos, que o livro faz tanto sucesso.

Convite portuguesRnV: Na sua opinião, o que há de mais carioca em Portugal e o que há de mais portuga no Rio de Janeiro?

Angela D. Menezes: No Brasil todo, sempre, a língua portuguesa, claro. Agora, o Rio de Janeiro, por ter sido o porto preferencial de levas e levas de imigrantes que chegaram aqui aos milhares no fim do século XIX e início do XX tem muitas características portuguesas. Os restaurantes, a comida – acho que, nem em Portugal, se come tanto bolinho de bacalhau – a arquitetura, os botequins (olha aí, o “Chico&Alaíde” onde vou relançar o meu livro), a estrutura familiar, influência na música (nosso chorinho nasceu de músicas de artistas que tentavam reproduzir o som dos bailes imperiais na Quinta da Boa Vista), as festas religiosas. Nossa, a influência portuguesa no Rio de Janeiro é imensa. Nem dá para listar.

RnV: Além do (re)lançamento do livro, que outros projetos você tem em mente e como eles se relacionam com as coisas do Rio?

Angela D. Menezes: Acabei de lançar um livro, “A tecelã de sonhos” (Editora Record) que traça um painel da cidade do Rio de Janeiro entre os anos 1960 e 2000. Sou carioca, nasci e cresci em Ipanema. 90% do que escrevo é ancorado na minha cidade. Não sei qual é o meu próximo projeto. Ele acontecerá como todos os outros, de repente. É muito provável que se relacione ao Rio. Afinal, aqui é o meu lugar. Eu sou aquele tipo de carioca que não toma jeito. Acha que a cidade se deteriora a cada dia, reclama, esperneia, mas adora isso aqui e não troca esta cidade por lugar nenhum do mundo.

 

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O Mistério do Barão é o Bicho!

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Mariana, menina nascida em Vila Isabel, curiosa que é, sempre ficou muito intrigada com os nomes imponentes das ruas de seu bairro. Visconde de Santa Isabel, Barão do Bom Retiro, Teodoro da Silva, dentre outros. Mas uma semelhança entre dois nomes despertava maior curiosidade: Viana Drummond, o nome da rua onde morava sua avó, e a principal praça do bairro, a Praça Barão de Drummond. Seriam pai e filho? Avô e neto? Que relação haveria entre esses dois personagens com o mesmo sobrenome?

Mariana, então, em suas pesquisas, descobriu histórias bastante interessantes. A história da formação de seu bairro, o mistério do Barão e a criação do carioquíssimo jogo do bicho. Explica-se.

Viana Drummond era empresário, capitalista e amigão do D. Pedro II. Como defendia a causa abolicionista, ficou brother da princesinha Isabel também. Isso o ajudou a arrematar a “Imperial Quinta do Macaco”, terra que hoje compreende Grajaú, Vila Isabel e Andaraí.

Um belo dia foi a Paris e ficou encantado com o que viu, os meios de condução, as ruas, as praças. E resolveu fazer experiências em suas terras recém adquiridas. Ali criou um boulevard, uma praça e até um jardim zoológico, onde pode colocar algumas das espécies de animais que mais gostava. A essa localidade deu o nome de Vila de Isabel, em homenagem àquela princesinha. Pronto! D. Pedro II não teve escolha, e deu ao Viana o título de Barão. Aqueles dois personagens que intrigavam Mariana eram a mesma pessoa!

No início, o Barão arrumava uma verba da Coroa pra manter os bichinhos de seu zoológico, mas com a abolição e a proclamação da República essa verba acabou e ele teve que se virar pra dar de comer à macacada e pagar seus funcionários. Logo criou uma promoção pra atrair visitantes ao zoológico: cada número representava um animal e cada ingresso dava direito a um bilhete numerado para concorrer no sorteio do “bicho” ao final do dia!

Assim, Drummond criou o “jogo do bicho” e, de quebra, talvez, a primeira promoção comercial no Brasil República. Eis aí o mistério do Barão de Drummond!

A praça que ele criou ainda está lá e hoje leva seu nome. Atualmente, o jardim zoológico é conhecido como “o antigo jardim zoológico do Rio” e virou área de lazer pra comunidade dos Macacos, vizinha dali. O Boulevard 28 de Setembro – data em que foi sancionada a Lei do Ventre Livre – ainda comporta a Igreja Matriz de Vila Isabel (Basílica Nossa Senhora de Lourdes), local onde Mariana consagrou seu batismo e eventualmente assiste às missas de domingo.

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